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- 17 de setembro de 2026
ESTAMOS FORMANDO PROFISSIONAIS OU REPETIDORES
Em um setor onde aprender fazendo sempre foi regra, salões enfrentam escassez de profissionais, escolas têm dificuldade pra fechar turmas e cresce a discussão sobre como desenvolver cabeleireiros mais bem preparados

O mercado profissional de cabelo no Brasil vive uma contradição impossível de ignorar: ao mesmo tempo em que cresce, se profissionaliza e movimenta bilhões, enfrenta uma dor cada vez mais evidente no dia a dia dos salões: a dificuldade de formar e reter profissionais qualificados. Salões sentem diariamente a falta de assistentes e cabeleireiros preparados, escolas tradicionais enfrentam dificuldade para fechar turmas e, em paralelo, ganham espaço cursos oferecidos por marcas focados no desenvolvimento técnico dos profissionais. Diante desse cenário, uma pergunta começa a circular com mais força no meio: afinal, estamos formando profissionais completos ou apenas repetidores de técnica? A provocação parte de uma inquietação real do mercado e ajuda a abrir uma discussão maior sobre como se aprende beleza no Brasil hoje, bem como sobre quais competências um cabeleireiro precisa desenvolver para construir uma carreira sustentável em um mercado cada vez mais competitivo. Para entender esse cenário, a HM conversou com Márcio Michelasi @marciomichelasi, educador, cosmetólogo, psicanalista e presidente do Sindicato Nacional Pró-Beleza @sindicatoprobeleza. Educação / Profissionais ou repetidores? dizagem muito ligada à figura do mentor”, explica o presidente do Pró-Beleza. Nesse contexto, grandes redes de salões e academias ligadas a salões historicamente ocuparam um papel importante na formação prática dos profissionais. Centros de treinamento mantidos por redes de salões, cursos independentes, escolas livres e treinamentos promovidos pela indústria ajudaram (e seguem ajudando) a estruturar diferentes níveis de capacitação. Ao mesmo tempo, esse modelo traz limitações. Quando a formação está excessivamente concentrada na técnica imediata, pode faltar espaço para o desenvolvimento de repertório mais amplo: visão de negócio, comportamento profissional, ética, atendimento, sustentabilidade, gestão e pensamento crítico. É nesse ponto que surge a provocação sobre “repetidores”. “Quando falamos em repetição, não estamos demonizando a técnica. Toda profissão exige repetição. O 42 DISCUSSÃO PEDE OLHAR MAIS AMPLO Márcio Michelasi é categórico ao afirmar que a discussão precisa partir do entendimento de que não existe um único caminho válido de formação. Cada história pessoal é única, e realidade, possibilidades e desejos individuais precisam ser considerados e respeitados. “Eu tenho muito cuidado para não falar negativamente de nenhum processo educativo, porque qualquer profissional que busca qualificação, seja em uma escola tradicional, em um curso livre, em uma academia ou em um treinamento oferecido por marcas, já está dando um passo importante para sua evolução”, afirma. Esse cuidado aparece ao longo de toda a entrevista, Márcio reforça diversas vezes que o setor da beleza sempre teve uma lógica própria de aprendizado, bastante diferente de profissões tradicionais – o que ajuda a entender por que a discussão sobre formação no segmento exige um olhar mais amplo. SALÃO AINDA É A PRINCIPAL ESCOLA DO CABELEIREIRO Se em outras áreas a formação teórica costuma anteceder a prática, na beleza muitas vezes acontece o contrário: primeiro se entra no salão, depois se amplia repertório. “O mercado é, historicamente, um espaço de aprendizagem prática. O profissional aprende trabalhando, observando, repetindo, errando e refinando”, resume Michelasi. Segundo ele, essa característica acompanha a profissão há séculos e ajuda a explicar por que tantos profissionais de sucesso não seguiram trajetórias acadêmicas convencionais. Nesse mercado, grande parte do aprendizado ainda acontece por meio da troca com profissionais mais experientes, na observação e na vivência diária dentro do salão, enquanto o atendimento ao cliente acontece. “É muito comum o profissional dizer com orgulho quem foi seu mestre, onde ele se formou ou em qual salão começou. Existe uma herança de aprenproblema é quando o profissional fica restrito apenas a reproduzir protocolos, sem ampliar sua capacidade de análise, adaptação e construção de repertório próprio”, explica Michelasi. Em outras palavras: saber executar um procedimento é fundamental, mas já não parece suficiente. PRESSA MUDOU A LÓGICA DA FORMAÇÃO Parte dessa discussão passa também pela transformação do próprio perfil de quem entra na profissão. Historicamente, a beleza sempre foi porta de ascensão social para milhares de brasileiros. É um setor com baixa barreira de entrada, investimento inicial relativamente acessível e potencial real de geração de renda. Muitos profissionais começam atendendo em casa, como assistentes ou auxiliares, e constroem carreira gradualmente. Essa urgência econômica influencia diretamente a escolha pela formação. “Muitos alunos precisam trabalhar imediatamente. Eles não conseguem parar um ano ou dois para cumprir uma grade de educação tradicional. Existe uma necessidade real de retorno financeiro rápido”, afirma Michelasi. Isso ajuda a explicar por que modelos mais rápidos, modulares e altamente aplicáveis despertam tanto interesse. Não se trata necessariamente de uma rejeição ao estudo, mas de adequação à realidade financeira e social de boa parte dos profissionais. O desafio está em equilibrar velocidade e profundidade. Cursos rápidos conseguem inserir profissionais mais rapidamente no mercado, enquanto formações mais estruturadas tendem a ampliar repertório e visão de carreira. A busca por conciliar essas duas necessidades – empregabilidade imediata e construção profissional de longo prazo – parece estar no centro do debate atual. ESCOLAS TÊM DIFICULDADE PARA FECHAR TURMAS Outro sintoma desse momento é a dificuldade crescente de escolas em manter turmas cheias. Segundo Michelasi, isso não significa falta de interesse por aprendizado, mas inadequação entre formatos tradicionais e a rotina real do profissional de beleza. “O cabeleireiro, em sua maioria, é autônomo ou caminha para isso. Muitas vezes ele depende do atendimento daquele dia para pagar suas contas. Daí, fica difícil sustentar uma rotina rígida de estudo em horários fixos”, explica.

Quando falamos em repetição, não estamos demonizando a técnica. Toda profissão exige repetição. O problema é quando o profissional fica restrito apenas a reproduzir protocolos, sem ampliar sua capacidade de análise, adaptação e construção de repertório próprio” Educação não é apenas instrução técnica. Também envolve comportamento, visão crítica, responsabilidade, ética, relacionamento e capacidade de leitura de mercado”Na prática, o aluno frequentemente precisa escolher entre estar em aula ou atender um cliente. A conta raramente fecha a favor da educação formal tradicional. Esse cenário ajuda a entender por que o setor vem buscando modelos mais flexíveis e integrados à rotina real do mercado profissional de cabelo. UMA NOVA PROPOSTA DE FORMAÇÃO Como resposta a algumas dessas dores, o Sindicato Nacional Pró-Beleza vem estruturando uma proposta de formação que busca aproximar prática, formalização e desenvolvimento educacional mais amplo. A iniciativa nasce 44 menos como substituição de modelos existentes e mais como tentativa de preencher lacunas percebidas pelo próprio setor. “O mercado mostrou que o salão é um ambiente central de aprendizagem. Então, nossa proposta foi pensar: como estruturar melhor esse processo, sem desconectar o aluno da realidade de trabalho?”, explica Michelasi. Um dos pilares dessa estratégia é o programa de bolsa aprendizagem.

Na prática, ele conecta profissionais em formação a salões parceiros conveniados ao sindicato. O aluno ingressa em um ambiente real de trabalho supervisionado, com orientação de profissionais mais experientes e apoio financeiro inicial em formato de bolsa. A lógica busca reduzir um problema histórico do setor: o alto custo de contratação e formação inicial por parte dos salões, combinado à alta rotatividade de assistentes. “Antes, muitos salões contratavam, treinavam e arcavam com custos trabalhistas de um profissional ainda em formação. Quando ele finalmente estava pronto, recebia proposta de outro lugar e saía”, explica Michelasi. Com a bolsa aprendizagem, o vínculo inicial deixa de operar na lógica clássica de contratação imediata e passa a funcionar como uma etapa estruturada de formação prática. Após esse período, o profissional pode seguir para contratação, parceria ou novas etapas de sua formação. Além disso, o Pró-Beleza também articula convênios educacionais voltados a ensino superior e cursos complementares ligados a áreas como cosmetologia, estética, nutrição, biomedicina e gestão. A ideia é ampliar possibilidades para quem deseja aprofundar conhecimentos e construir trajetória mais multidisciplinar. Michelasi também destaca que já existem caminhos de formação superior diretamente relacionados à atuação do cabeleireiro. Segundo ele, profissionais que desejam ir além da formação exclusivamente técnica podem buscar graduações como cosmetologia e o tecnólogo em imagem pessoal e visagismo, opções voltadas a quem pretende ampliar repertório, aprofundar conhecimentos e construir atuação mais estratégica dentro do setor. FORMAÇÃO PEDE COMBINAÇÃO, NÃO EXCLUSÃO Diante de tudo o que foi levantado, uma conclusão parece se consolidar: o setor não precisa escolher entre formação prática em salão, academias independentes, escolas tradicionais, cursos promovidos pela indústria ou ensino superior. Ao contrário. A formação do cabeleireiro contemporâneo parece caminhar menos por exclusão e mais por combinação de repertórios. A prática continua central. A técnica segue indispensável. Cursos promovidos por marcas mantêm relevância estratégica para atualização, domínio de produtos e conexão com inovação. Mas cresce a percepção de que isso pode ser complementado por outras camadas de desenvolvimento. “Educação não é apenas instrução técnica. Também envolve comportamento, visão crítica, responsabilidade, ética, relacionamento e capacidade de leitura de mercado”, resume Michelasi. Em um setor que muda rápido, impulsionado por tendências, redes sociais, comportamento de consumo e inovação constante, talvez a principal habilidade já não seja apenas executar bem, mas conseguir evoluir continuamente. No fim, a pergunta inicial permanece essencial justamente porque não oferece uma resposta simples. Mais do que decidir qual modelo é melhor, o debate convida o mercado e também cada profissional individualmente a refletir sobre algo mais profundo: que tipo de profissional a beleza brasileira quer formar para o futuro? E, você, que tipo de cabeleireiro deseja ser?

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